Em resposta à alteração no perfil epidemiológico da hepatite A no Brasil, o Ministério da Saúde anunciou a ampliação do público-alvo da vacina oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A partir de agora, pessoas que utilizam a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) — tratamento preventivo contra o HIV — passam a ter acesso à vacina contra hepatite A, com o objetivo de conter surtos e proteger um público que hoje representa a maior parte dos casos graves da doença.
A medida beneficia diretamente mais de 120 mil brasileiros que fazem uso da PrEP pelo SUS, e busca prevenir não apenas novas infecções, mas também hospitalizações e mortes relacionadas à hepatite A em adultos.
PrEP passa a ser critério de prioridade para imunização
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A decisão tem como base dados recentes que apontam para o aumento de infecções por hepatite A entre adultos, especialmente homens que fazem sexo com homens — público que representa aproximadamente 80% dos usuários de PrEP.
Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, a mudança na estratégia de vacinação é consequência do sucesso da campanha anterior voltada às crianças.
“A partir do momento que garantimos no SUS, em 2014, a ampla vacinação do público infantil, que era o público com maior risco de ter Hepatite A, a doença passou a ter uma concentração no público adulto. Os surtos descritos no país, com características semelhantes, apontam para a importância de expandir a vacinação para o público que utiliza a PrEP”, afirmou o ministro.
Ainda segundo Padilha, a imunização de adultos é essencial para reduzir internações e complicações:
“Isso também tem um impacto na gravidade da doença, pois os casos graves acontecem, em geral, em adultos. Com esta ampliação, vamos conseguir reduzir os riscos de internação, casos graves e óbitos por Hepatite A no SUS, protegendo a população.”
Registros em adultos acendem alerta nacional
A hepatite A é uma infecção viral que atinge o fígado e, embora geralmente seja autolimitada, pode provocar quadros severos, especialmente em adultos. A transmissão ocorre principalmente por via fecal-oral, mas a Organização Mundial da Saúde (OMS) identificou, desde 2016, um aumento de casos relacionados a práticas sexuais — até mesmo em países com baixa prevalência da doença.
No Brasil, o primeiro alerta sobre essa mudança foi emitido em 2017, após um surto registrado em São Paulo, que resultou em 786 casos e dois óbitos. Desde então, novos surtos foram documentados em diversas regiões, sempre com predominância entre homens adultos.
Em 2023, a hepatite A voltou a registrar crescimento, com 2.080 casos notificados, sendo 1.877 em pessoas com mais de 20 anos. Homens representaram 69,5% dos infectados nesse grupo etário.
Meta é imunizar 80% dos usuários de PrEP
Para controlar os surtos e oferecer proteção de longo prazo, o Ministério da Saúde estabeleceu a meta de vacinar 80% das pessoas em uso da PrEP. O esquema vacinal será composto por duas doses, com intervalo de seis meses.
Para ter acesso às doses, os usuários devem apresentar a receita da medicação em seus locais habituais de atendimento, onde também serão informados sobre o ponto de vacinação mais próximo.
A expectativa da pasta é que a vacinação funcione como um reforço importante às demais medidas preventivas já adotadas pelo SUS, como distribuição de preservativos e acompanhamento clínico regular.
Redução expressiva entre crianças demonstra eficácia da vacina
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A inclusão da vacina contra hepatite A no calendário infantil do SUS, a partir de 2014, resultou em uma queda significativa nos registros da doença entre crianças. Em uma década, os casos caíram de 6.261 em 2013 para apenas 437 em 2021 — redução de 93% considerando todas as idades.
Entre os pequenos, a queda foi ainda mais acentuada. No recorte de 2013 a 2023, as infecções diminuíram 97,3% entre crianças menores de 5 anos e 99,1% no grupo de 5 a 9 anos.
Esses números reforçam a eficácia da imunização e justificam a nova aposta do Ministério da Saúde na proteção de outros grupos vulneráveis, como os usuários da PrEP.
Estratégia nacional amplia combate à hepatite A
Com a ampliação da vacinação, o governo reforça a vigilância e a resposta às hepatites virais, que continuam sendo um desafio de saúde pública. A hepatite A, embora controlável, pode ter desdobramentos graves e sobrecarregar o sistema hospitalar, especialmente quando acomete pessoas com comorbidades ou em situação de vulnerabilidade.
A nova diretriz acompanha uma tendência mundial de associar prevenção a práticas de saúde sexual seguras, alinhando o combate ao HIV à proteção contra outras infecções, como a hepatite A.